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Hoje, o nível de surf ainda é o mais importante?


O meu nome é Luís Perloiro, tenho 27 anos, e sou surfista profissional. Quando digo “profissional” não o digo da forma mais tradicional. Forma esta que até 2015 era a única forma de ser surfista.


Até 2015, para viver do surf, ou se era competidor ou freesurfer. De 2015 a 2018, deu-se o grande boom do Instagram, e as parcerias pagas começaram a surgir. Começou a ser possível rentabilizar conteúdos relacionados com o surf nas redes sociais e, ao crescer a nossa audiência, começaram a aparecer propostas pagas que nos permitem surfar, filmar momentos, partilhar os conteúdos e monetizá-los.


Ainda participo em competições porque acredito que no dia em que o deixar de fazer é porque está na altura de deixar de “viver do surf”. A competição ajuda-me a manter a forma e o meu nível de surf, e tenciono produzir conteúdos onde a performance técnica seja minimamente boa.


As redes sociais vieram reinventar a forma como se vive o surf profissional. Podemos ver que os surfistas profissionais, sejam competidores ou não, estão a investir em conteúdos cada vez mais frequentes nas redes sociais.

Antigamente a identidade de um surfista passava pelo estilo de surf dele, pela forma como se vestia, pelas manobras que fazia e pelos resultados que atingia. Tudo isto se consolidava nas revistas de surf e nos filmes “core surf” que qualquer surfista da minha geração tanto consumiu.


Hoje em dia esta identidade é consolidada online, nas redes sociais. Se prefiro esta nova forma de ser surfista? Sinceramente não, mas o mundo digital sedento por conteúdo levou-nos por este caminho e se queremos surfar e viver do surf temos apenas duas opções:

1 – Estar no WCT (implica top 8 Europa e depois top 10 CS – ultra difícil);

2 – Produzir e monetizar conteúdos.


A verdade é que mesmo a maioria dos surfistas do WCT também produzem e monetizam conteúdos, a identidade e a presença digital do surfista moderno estão muito dependentes daquilo que cada um publica nas redes sociais.


Como sabemos, as grandes marcas de surf estão atualmente a passar por dificuldades financeiras comparativamente ao sucesso que tiveram no fim dos anos 90, e no início dos anos 2000.

O surfista moderno teve que se reinventar e procurar marcas fora do “core surf” para continuar a viver o sonho. Qualquer uma destas marcas valoriza bastante a presença digital do surfista que decide patrocinar. Deixou de ser apenas o nível de surf, as manobras e os resultados, passou a ser o número de seguidores e os likes.


Acho que esta transformação digital trouxe consequências positivas e negativas. Por um lado trouxe uma nova forma de viver do surf e de monetizar aquilo que tanto gostamos de fazer, por outro, veio desvalorizar o standard do nível técnico do surfista que o quer fazer. Ou seja, se for um surfista com uma presença forte nas redes, que comunica bem e que produz conteúdos interessantes, o nível de surf acaba por ser bastante irrelevante, abrindo espaço para “surfistas profissionais” que na verdade têm níveis técnicos de surf muito baixos.


Para terminar, acredito que as redes sociais vieram de facto reinventar o surf profissional e vieram para ficar. Também acredito que passamos cada vez mais tempo colados ao ecrã a fazer scroll no Instagram e é mais saudável passarmos mais tempo dentro de água e menos tempo no telemóvel.

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Sessões filmadas como aconteceram, sem filtros, em
Portugal e no mundo. Pelas lentes dos parceiros À Deriva.

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