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Terá a WSL perdido a prioridade nos Jogos Olímpicos?

O novo sistema de qualificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 abriu uma fratura pública no surf profissional. Poucos dias depois de a ISA anunciar as regras, vários atletas do Championship Tour (CT) reagiram de forma direta e crítica nas redes sociais. O motivo é simples, o peso do CT foi reduzido de forma significativa no acesso às vagas olímpicas.

Direitos de Imagem: ISA | Pablo Jimenez - Surfer: Kauli Vast
Direitos de Imagem: ISA | Pablo Jimenez - Surfer: Kauli Vast

Em LA28 haverá 48 atletas (24 homens e 24 mulheres) e o limite máximo por país sobe de dois para três surfistas por género. Mas a alteração estrutural mais sensível está na via de acesso pelo circuito da WSL.


O que mudou, em termos concretos

Em Paris 2024, o CT garantiu 18 vagas diretas (10 masculinas e 8 femininas), atribuídas com base no ranking do ano anterior aos Jogos.

Para LA28, esse número desce para 10 no total: 5 homens e 5 mulheres, definidos pelo ranking do CT a meio da temporada de 2028 (15 de junho), com limite de um atleta por país. Ou seja:

  • Há paridade absoluta entre géneros.

  • O número de vagas do CT reduz praticamente para metade.

  • A qualificação deixa de assentar no ranking do ano anterior e passa a refletir o momento competitivo no próprio ano olímpico.

Na prática, países tradicionalmente dominantes, como Brasil, Austrália e os Estados Unidos, poderão ver mais do que um atleta no top 5 do CT sem que isso se traduza em mais do que uma vaga direta.


Mas será este o ponto central da contestação?


As críticas dos atletas do CT

A reação foi rápida e pública.

Erin Brooks afirmou que “Consistência ao mais alto nível é o que define o surf competitivo. Isso acontece no CT, e o caminho para a qualificação olímpica deveria refletir isso.”

Leonardo Fioravanti foi mais direto, defendendo que o sistema anterior “funcionava na perfeição” e que o campeão mundial da WSL de 2027 pode não ter presença garantida nos Jogos. Acrescentou ainda que os surfistas do CT tentaram dialogar com a ISA antes da decisão.

Yago Dora falou em “falta de respeito”, enquanto Lakey Peterson referiu falta de comunicação e ausência de abertura ao diálogo.

O argumento comum é claro, se o CT reúne, teoricamente, o mais alto nível competitivo do surf mundial, faz sentido reduzir o seu peso no processo olímpico?


WSL e ISA,  dois sistemas distintos

A tensão exposta agora não é nova. Ela nasce de uma realidade estrutural.

A WSL é uma organização privada que opera o circuito profissional global (QS, Challenger Series e CT), coroando campeões mundiais e concentrando a maior exposição mediática do surf competitivo moderno.

A ISA, fundada em 1964 e reconhecida pelo Comité Olímpico Internacional como a autoridade mundial da modalidade, gere o surf numa lógica federativa. Organiza os ISA World Surfing Games (WSG), onde os atletas representam as suas seleções nacionais, competindo tanto individualmente como por equipas.

No contexto olímpico, quem tutela o processo é a ISA, não a WSL.

Isso significa que:

  • O CT é uma via de qualificação, mas não é a entidade decisora.

  • As federações nacionais têm poder real na escolha e preparação dos atletas para os WSG.

  • As vagas olímpicas podem ser conquistadas fora da estrutura do CT.

Um atleta do CT que não se qualifique pelo ranking da WSL pode ainda fazê-lo via WSG.Um atleta fora do CT não tem qualquer possibilidade de qualificação através do circuito da WSL, apenas via competições ISA e continentais.

Esse detalhe altera a leitura da “perda” de poder do CT.

Direitos de Imagem: ISA


Benefícios do novo formato de acordo com a ISA

A ISA argumenta que o novo modelo reforça a universalidade, permite maior representatividade global, obriga todos os atletas a competir nos WSG em igualdade real e que o novo modelo reflete o momento competitivo de 2028, e não os resultados de 2027.

Justine Dupont defendeu o sistema afirmando que é “mais apropriado”, sublinhando que campeões e medalhados olímpicos anteriores garantiram qualificação através dos WSG e que o novo modelo assegura maior equilíbrio entre países.

O aumento para três vagas máximas por país também amplia o teto competitivo das nações com maior profundidade, ainda que limitado pelas regras hierárquicas.

A pergunta central permanece, os Jogos Olímpicos devem premiar apenas a elite fechada do circuito privado mais forte do mundo, ou devem refletir uma lógica global, federativa e nacional?


O que está em jogo?

O debate não é apenas sobre vagas. É sobre o poder institucional. O CT representa o topo do surf profissional. A ISA representa o surf como modalidade olímpica e federativa.

A WSL construiu o palco mediático mais relevante da história da modalidade. A ISA garantiu a entrada do surf nos Jogos Olímpicos.

Reduzir as vagas do CT não significa eliminar os seus atletas do processo. Mas significa retirar-lhe centralidade absoluta. A questão já não é se estarão os melhores surfistas em LA28. É quase certo que estarão.

A verdadeira questão é, quem define o que significa “melhor” no surf olímpico, o ranking de um circuito privado ou um sistema que cruza ranking profissional, representação nacional e competições globais abertas?

O conflito exposto pode ser apenas um ajuste estrutural. No entanto, a missão do COI é clara: “Liderar o Movimento Olímpico, promovendo o desporto ético. O seu objetivo é fomentar a paz, a educação e o desenvolvimento através do desporto, sem discriminação. Também protege os atletas e apoia as suas carreiras.”

A disputa expôs publicamente tensões institucionais num momento sensível para a consolidação olímpica da modalidade.


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