Piscinas de ondas e o novo surfista: controlo, conforto e o que se perdeu no mar
- Pedro Bettencourt

- 6 de fev.
- 3 min de leitura

Aprendi a surfar num tempo em que quase tudo acontecia no mar. Não havia escolhas nem sessões desenhadas à medida. Entrava-se na água sem saber o que ia acontecer. Às vezes dava. Muitas vezes não. E isso fazia parte do processo.
Cresci a errar. A falhar take offs. A escolher mal o pico. A passar mais tempo a remar do que a surfar. Cresci a sair da água frustrado e cansado, mas quase sempre com a sensação de que tinha aprendido alguma coisa. Aprendi cedo que o mar não devia nada a ninguém e que o controlo era, no fundo, uma ilusão.
Nesse tempo, a evolução era lenta. Uma manobra podia demorar meses ou anos a encaixar. Mas cada onda era diferente e cada sessão trazia uma lição nova. Aprendi a esperar, a ler o mar, a aceitar o erro e a respeitar o risco. Aprendi a gostar da incerteza. Essa era, para mim, a forma de surfar.
Hoje vejo a formar-se uma nova forma de surfar. E também me vejo dentro desse mundo.
As piscinas de ondas mudaram profundamente a experiência do surf. Hoje posso escolher que tipo de onda quero surfar. Posso escolher se quero tubos ou apenas manobras, se quero uma onda mais lenta ou mais acelerada. Posso repetir a mesma secção vezes sem conta, corrigir detalhes, afinar o timing e evoluir tecnicamente muito mais rápido. Isso é inegável.
Esta nova forma de surfar traz conforto e estrutura. Balneários com chuveiro de água quente. Sessões dentro de edifícios quando lá fora chove ou faz vento. Pranchas ajustadas ao surfista ou ao aluno. Ferramentas que antes não existiam fazem agora parte do dia a dia. Video reviews logo após a sessão. Vídeos das manobras. Imagens dentro de água onde consigo ver detalhes e perceber melhor o que estou a fazer e como posso melhorar.
Mas há um lado das piscinas que, para mim, representa uma das maiores mudanças em relação ao mar. Numa piscina de ondas não tens de lutar pela tua onda. Cada surfista tem a sua prioridade. Não há drop ins nem discussões. O ego baixa automaticamente porque todos sabem que vão ter a sua oportunidade.

A vibe muda completamente. É uma vibe de boas energias. Cada um puxa pelo outro, mesmo quando são todos desconhecidos. Ficas genuinamente feliz porque alguém completou uma onda do início ao fim, independentemente do nível. Vês alguém dentro de um tubo e levantas os braços porque aquele momento é especial. Muitas vezes já não vemos isso no mar, onde todos estão à procura da melhor onda do dia. Nas piscinas, essa luta desaparece.
Mas o mar continua a ser outra conversa.
No oceano não escolho nada. O mar entrega o que tem, quando quer. Obriga-me a adaptar-me, a esperar e a errar. Há dias em que entro cheio de vontade e saio quase vazio. E, mesmo assim, é ali que continuo a aprender coisas que nenhuma piscina me ensina.
Cada onda no mar é única. Não se repete. E é isso que me liga ao surf de uma forma mais profunda. A procura do swell certo, do momento certo, daquela sessão que acontece uma vez e nunca mais volta. A sensação de estar cem por cento ligado ao mar, sem controlo e sem garantias.
Questionar esta nova forma de surfar não é rejeitá-la nem romantizar o passado. É aceitar que o surf está a mudar e perceber o que queremos levar connosco nessa mudança. As piscinas trouxeram evolução, conforto, acesso e uma energia mais limpa dentro de água. O mar continua a oferecer aquilo que nunca será replicado: a incerteza, a espera e a ligação profunda a algo maior do que nós.
Talvez o surfista que está a ser criado hoje precise de aprender a viver entre estes dois mundos. Usar o controlo para evoluir, sem perder a capacidade de adaptação. Aproveitar a previsibilidade sem esquecer o valor do erro. Crescer tecnicamente, mas manter a humildade.
No fim, o surf não é sobre onde surfamos, mas sobre como surfamos. Sobre a atitude com que entramos na água e a forma como lidamos com aquilo que não conseguimos controlar. Se conseguirmos levar para o mar a energia positiva das piscinas e levar para as piscinas o respeito e a consciência que o oceano nos ensina, talvez estejamos a construir a melhor forma de surfar possível.










Comentários